quinta-feira, 5 de setembro de 2019

HERMETO PASCOAL AO VIVO EM MONTREUX




"Remelexo cá/ remelexo lá/ re-me-le-xo em qualqué lugá!" Em bom alagoano, o Bruxo de Arapiraca lançou o seu grito de guerra na noite suíça. Este é o registro daquela data histórica - 20 de julho de 1979 - no 13o. Festival de Jazz de Montreux. Foram dois espetáculos, mais de cinco horas de música e o próprio Hermeto se trancou num estúdio durante quinze dias para selecionar o material deste álbum.

Hermeto, Montreux. Que pode haver de comum entre um nordestino nascido na Lagoa da Canoa (a 22 de junho de 1936) e a Pérola da Riviera do Lago Léman? Resposta: o jazz. Mas nem mesmo esse rótulo é suficiente para definir o som telúrico de Hermeto. Músico dos músicos, entidade mágica desde os tempos em que tocou com Miles Davis nos Estados Unidos, ele também é objeto de estudo dos críticos mais especializados. Francis Marmande, por exemplo, do Jazz Magazine, o ouviu em Montreux e fala de "um Brasil com fronteiras musicais muito livres". Michel Zwerin, dias antes de sua apresentação na Noite Brasileira, publicou um artigo no International Herald Tribune afirmando que, no LP Zabumbê-bum-á, Hermeto "cria sua própria forma do mesmo modo como o álbum dos Beatles, Sargent Pepper's criou uma forma". E assim descreveu uma das faixas: "Um soprano conduz um grupo de saxofones estreitamente entrosados. As figuras polirrítmicas e politonais são uma espécie de Berg incrementado com jazz. Surge a selva. Passagens melódicas implicam Stevie Wonder. Campainhas, buzinas, apitos, uivos e estalidos saem direto da filosofia de John Cage. Algumas texturas devem fazer Frank Zappa se olhar no espelho. Podemos reconhecer Sun Ra e Kurt Weill, e uma breve sequência é tirada de Giant Steps de Coltrane, como que para dizer: 'Vejam - nós também somos capazes de fazer isso' ".

Hermeto dispensa tantas explicações. Ele é ao mesmo tempo muito mais simples... e muito mais complexo. Era preciso vê-lo, embarcando no Galeão, com sua parafernália de percussão - agogôs, caxixis, triângulos, apitos, cabaças - e umas panelas e tralhas que seria mais fácil comprar em qualquer loja de ferragens local do que transportar de um hemisfério para o outro. E tem ainda o já lendário episódio da alfândega suíça: como convencer o aduaneiro de que aquela bacia toda amassada era rigorosamente um instrumento musical?

Folclore à parte, Hermeto é um profissional seríssimo, destes que se contam nos dedos da mão. Não hesito em comparar seu trabalho ao de Charlie Mingus. Mais do que um talentoso indivíduo musical, ele é um compositor , um mestre, sabe formar outros músicos, outros compositores, conduzir seus esforços à meta procurada, aglutinar suas personalidades numa massa sonora em que a criação coletiva acaba contando mais do que tudo. Hermeto funciona no que os americanos costumam chamar de uma Workshop, e o termo é duplamente apropriado pelo que sugere daquele trabalho tanto dos artesões medievais, como da típica paciência nordestina.

Philippe Lesage, de Jazz Hot, esteve em Montreux e soube captar isso: "Hermeto abre para cada um de seus músicos espaços livres nos quais eles podem revelar sua personalidade profunda, sem deixarem de se inscrever na coesão do grupo por meio de uma cumplicidade nascida de um longo trabalho comum".

Os músicos que acompanharam Hermeto a Montreux são basicamente os de seu grupo atual, aquele que gravou Zabumbê-bum-á: Cacau (sax tenor, sax barítono, clarineta, flauta), Jovino (teclados), Zabelê (vocais e percussão), Itiberê (baixo elétrico), Pernambuco (vocais e percussão) e Nenê (bateria). O grupo foi acrescido de Nivaldo Ornellas (sax tenor, sax soprano, flauta) que deu outra prova da capacidade organizadora de Hermeto, integrando-se em pouco tempo à sua linguagem.

Quanto ao próprio Hermeto, nunca se atirou com tanta garra e avidez ao ato de criação. Ao contrário de seus outros álbuns, produzidos na atmosfera rarefeita do estúdio, este duplo, gravado ao vivo, lhe deu horizontes abertos para expandir ao máximo todas as facetas do seu talento. E não são poucas. Além de assinar todas as composições, ele se desdobra de um instrumento para outro, salta dos teclados para os sopros (sax tenor, soprano, flauta), explora com impressionante agilidade um instrumento pouco valorizado - a escaleta e entrega-se a vocais incríveis, alguns fundindo a melhor tradição nordestina com o scat jazzístico, como no refrão "A-E-I-O-U-psilonizê". E, de repente, tira até efeito de um simples apito, que cospe sobre o palco depois de um solo elaborado para retomar imediatamente o improviso de escaleta. Ou então estabelece um insólito dueto entre sua própria voz e a escaleta, conseguindo em certas passagens como fazia Rahsaan Roland Kirk - superpor a voz e os sons emitidos pelo instrumento.

Há neste "Ao Vivo em Montreux" uma riqueza de detalhes que só uma audição mais demorada deixará perceber. Não é um álbum de consumo instantâneo, mas algo que o gourmet sonoro degustará aos poucos - e por muito tempo. Outro aspecto notável é a maneira como Hermeto se comunica com a platéia. No final do primeiro concerto, instado a voltar pelas palmas ritmadas do público, ele pede que elas prossigam naquela mesma cadência (tudo isso em português) e faz um incrível solo de sax acompanhado pelos aplausos. Antes de executar na flauta a bela modinha que compôs no quarto do hotel inspirado pela paisagem que via da janela, Montreux, Hermeto avisa àquela massa multinacional de quatro mil jovens: "Olhaquí, pessoal, é uma música lenta. Se fizerem barulho eu paro, hein?".

Os títulos das faixas como Pintando o Sete e Quebrando Tudo dão uma boa ideia das intenções musicais de Hermeto em Montreux. E também uma ideia do pique atingido por sua carreira em 1979. Além de dois álbuns tão diferentes e ao mesmo tempo tão importantes (Zabumbê e Ao Vivo), duas apresentações em festivais internacionais de jazz (Montreux e Tóquio), duas temporadas nacionais consagradas (Rio e São Paulo), a preparação da trilha sonora de uma novela (O Cangaceiro), e uma turnê em dezembro que dará o que falar: Hermeto Pascoal e Dizzy Gillespie. Atravessando a América Latina, de Caracas a Buenos Aires, pelas principais cidades brasileiras, dois gigantes da música instrumental de hoje - o jazzman das origens negras norte-americanas e o jazzman dos anos 80, que soube arrancar de suas raízes nordestinas um som novo que o mundo inteiro ouve com vibração.



Roberto Muggiati
(autor do livro Rock/ O Grito e o Mito, colunista de jazz de Manchete e Ele Ela)

Texto copiado, na íntegra, do press-release incluído em cópia promocional do LP Hermeto Pascoal Ao Vivo, lançado em 1979 pela WEA. Eventuais erros são devido à reprodução fiel do texto contido no release.  

domingo, 28 de janeiro de 2018

Victoria Saavedra, ou o encontro das "duas Américas Latinas"

Uma coisa que sempre me incomodou é a quase total ignorância que nós temos em relação à produção cultural - e, especialmente, musical - de nossos "hermanos". Uruguaios, argentinos, chilenos etc. amam a música brasileira, mas o mesmo não acontece aqui com o que é feito musicalmente nesses países, e por pura ignorância. Pra ficar em um exemplo, enquanto os Paralamas do Sucesso tocam para um Luna Park lotado, quando vão à Argentina, grandes nomes como Jorge Drexler, Luiz Alberto Spinetta, Charly Garcia, Victor Jara, entre outros, são praticamente ilustres desconhecidos em terras auriverdes. Um intercâmbio que seria muito saudável para todos, simplesmente não acontece. E muito disso se deve ao fato do brasileiro, de um modo geral, não se reconhecer também como latino americano. Curioso, não?

  (foto: Sofia Colucci)

Dentro desse cenário, foi com muita alegria que tomei conhecimento do trabalho de Victoria Saavedra. Victoria é colombiana e radicada no Brasil - mais especificamente, em São Paulo - há mais de seis anos. E, desde então, ela tomou para si a missão de unir as "duas Américas Latinas" (entre aspas, porque, de fato, América Latina é só uma, e fazemos parte dela, sim, senhor!). Em todos os seus trabalhos, ela fez essa união de forma brilhante, mostrando que o Brasil e a América de idioma espanhol tem mais pontos em comum que distintos.


Em meados de 2017, Victoria Saavedra lançou seu primeiro disco solo, Remanso Entre Raízes. Disco que eu considero como um dos melhores do ano passado, e que ilustra lindamente, com uma produção impecável, arranjos primorosos e uma sensibilidade extrema, o quanto a América Latina é uma só, mesmo com a diferença do idioma. Misturando vários estilos e ritmos da América centro-sul, Victoria fez um trabalho extremamente original e NOVO, e que deve ser ouvido pelo maior número de ouvidos curiosos e apaixonados por música possível. E ele tá aí disponível em todas as plataformas digitais, You Tube, Deezer, Spotify, a escolher.

Parabéns, Victoria! Que esse seu disco seja o primeiro de muitos, e que sua música atinja o máximo de ouvidos e corações, como atingiu o meu. :)

  

sábado, 24 de outubro de 2015

Tesouros do Bacião V

O “Tesouro” de hoje é a história de dois músicos inovadores, gênios dentro de suas áreas de atuação, que fizeram trabalhos antológicos e que têm alguns pontos em comum e tantos outros bem distintos. E que, por um capricho do destino, não trabalharam juntos.

  Miles Davis (no fundo, à esquerda) e Gil Evans (mais à frente)

Gil Evans foi um dos maiores arranjadores da História do jazz e teve uma carreira bem longeva, que começou nos anos 1930 e seguiu até a sua morte, em 1988. Nascido em 13 de maio de 1912, no Canadá, Evans iniciou sua carreira em 1933, na Califórnia, já liderando sua própria big band. Nos início dos anos 40, Evans começou a ganhar fama como arranjador, nos seus trabalhos com a orquestra de Claude Thornhill e, também por essa época, já absorvia a influência do be-bop, estilo de jazz que começava a ser desenvolvido por nomes como Dizzy Gillespie, Charlie Parker e Miles Davis. E foi com Davis que Gil Evans fez seus trabalhos mais antológicos, tendo sido o responsável pelos arranjos e regências dos discos Miles Ahead (1957), Porgy And Bess (1958) e Sketches Of Spain (1960), clássicos absolutos e fundamentais em qualquer coleção de respeito. E, outro ponto em comum entre Miles Davis e Gil Evans é a busca constante pela inovação. Assim como Davis, Evans também foi bem sucedido ao usar instrumentos elétricos e influência do rock nos arranjos da sua orquestra, a partir do final dos anos 60.


Jimi Hendrix teve uma vida muito curta (1942 – 1970), mas, no curto tempo de vida que teve, deixou um legado e uma influência que, até hoje, são sentidos. Hendrix iniciou sua carreira no início dos anos 60, acompanhando nomes como King Curtis e Little Richard, até se mudar para a Inglaterra em 1966, com Chas Chandler (ex-baixista do Animals que se tornara empresário). E, ali, deu início a sua revolução, ao montar a Jimi Hendrix Experience ao lado de Noel Redding (baixo) e Mitch Mitchell (bateria). Essa formação durou até 1969, quando Hendrix passou a ser acompanhado por outros músicos como Buddy Miles e Billy Cox (quando formou a Band Of Gypsys, que durou tempo sufciente apenas para uma apresentação no Fillmore East, no Reveillón de 1969, e que gerou o disco homônimo).

E dizer que Hendrix foi o “maior guitarrista de todos os tempos”, pra mim, é limitador, e não dá a real importância que ele teve na história da música. Hendrix simplesmente “reinventou” o instrumento, utilizando de vários efeitos, assim como também usou e abusou dos recursos de estúdio (que, na sua época, eram até bem limitados) para criar seu som. Assim como Gil Evans, foi um inovador.

Gil Evans – The Gil Evans Orchestra Plays The Music Of Jimi Hendrix (1974)  


Nos seus últimos dias de vida, Jimi Hendrix começava a criar interesse pela então nascente cena do jazz/ fusion. Nessa época, Miles Davis lançou seu Bitches Brew (1970), que misturava os improvisos do jazz com o peso e a eletricidade do rock. E outros nomes também começavam a seguir essa trilha, como John Mclaughlin (que tocou guitarra no Bitches Brew), Larry Coryell, Herbie Hancock entre outros que surgiriam ao longo daquela década. E, nesse interesse crescente de Hendrix, ele começou a conversar com Gil Evans, com a ideia de fazerem juntos um projeto, fosse um disco, ou uma apresentação ao vivo, unindo a fúria de sua guitarra com a orquestra de Evans que, nessa época, também enveredava pelos caminhos do fusion. Porém, o destino não quis que esse encontro acontecesse. Jimi Hendrix faleceu em setembro de 1970, antes que esse projeto se concretizasse.

Quatro anos depois, em 1974, Gil Evans toma para si a missão de levar a cabo esse projeto, em forma de tributo, escolhendo 9 composições de Hendrix e enriquecendo-as com seus arranjos e sua orquestra de 19 peças. E o resultado é espetacular, com Evans conseguindo a fusão perfeita da fúria e da eletricidade do som de Jimi Hendrix com o swing e o improviso do jazz. E, ao ouvir, ficamos imaginando como poderia ter sido, se Hendrix tivesse sobrevivido para gravar um disco com Gil Evans...   

Reedição de 1989.

Esse disco não chega a ser exatamente um item de “bacião”, mas a reedição em vinil, lançada em 1989, não é difícil de encontrar, com exemplares sendo vendidos a um preço médio de R$ 25,00, R$ 30,00 (edição brasileira). Com sorte, se acha até por menos. O original de época também é facilmente encontrável via Ebay, mas por um preço bem mais salgado. Enfim, seja qual for a edição, é um disco que vale muito a pena ter no acervo.



  

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Tesouros do Bacião IV


O “Tesouro” de hoje entra nos dois quesitos que utilizo nessa série: é um disco subestimado e é um disco que ainda se acha a preços muito camaradas nas lojas e sebos. Quando se fala em Jorge Ben (Jor), os discos que vêm à lembrança são seus primeiros discos pela Philips nos anos 60, ou o Bidu – Silêncio No Brooklin, que ele gravou para a Rozenblit em 1967, ou o Tábua de Esmeralda, clássico absoluto de 1974, entre outros igualmente cobiçados e que são vendidos a valores de “três dígitos” em suas edições originais. Porém, há um disco que é, curiosamente, ignorado pelos colecionadores em sua maioria, e que, pra mim, não deixa nada a dever aos outros álbuns citados.

Jorge Ben – 10 Anos Depois (1973)


Entre 1969, ano do seu retorno à Philips, e 1977, Jorge Ben lançou discos que se tornaram antológicos na História da música brasileira. Discos que entram em qualquer antologia de respeito do som brazuca, como o de 1969 (País Tropical), o Negro É Lindo (1971) o Ben (1972), o Africa Brasil (1977) etc. E, em 1973, Ben lança o 10 Anos Depois, que consiste de regravações de músicas já por ele consagradas. E, para se ter uma ideia de como esse disco é subestimado, a única fonte de informação a respeito dele que tenho é justamente o LP original – não existe informação nenhuma na internet sobre ficha técnica, músicos que participaram das gravações, história do disco etc. O máximo que encontrei, nas minhas pesquisas, foi a lista de faixas e uma ou duas linhas sobre o disco. Uma pena.

O ábum consiste de 7 “medleys”, com alguns dos sucessos de Jorge Ben até ali. E, o que faz desse disco tão especial, são os novos arranjos dados a essas músicas. Nessas regravações, elas ganharam um “punch”, virando uma espécie de “heavy samba-rock”. É, sim, um dos grandes itens da discografia do Jorge Ben, de um período inspiradíssimo de sua carreira e que merecia um lugar de mais destaque. Mais um “Tesouro” imperdível.



   

sábado, 17 de outubro de 2015

Teddy, o homem que “come e dorme vinil”


Nessa vida de fissurado em música, nós temos aquelas que são nossas fontes de informação. Tais fontes podem ser programas de rádio, revistas, sites da internet ou até mesmo aquele amigo mais chegado que, entre uma conversa e outra, vai te indicando discos, canções, artistas etc.

Há uns dois anos atrás, através de um post do Mauricio Valladares no seu site RoNcaRoNca, fui apresentado a um canal do You Tube chamado vinyliciousness, administrado por um certo Teddy. Os videos desse canal são, basicamente, o tal Teddy apresentando itens da sua coleção de discos, sejam novas aquisições, ou discos selecionados tendo um tema em comum. Bem, canais do You Tube e videos com esse teor existem aos baldes, mas esses videos têm um diferencial.

O diferencial é que o Teddy saca MUITO de música e MUITO dos discos que possui. A onda dele é, basicamente, jazz e avant-garde, mas de tempos em tempos ele também dá boas dicas de discos de rock, blues e soul. Todos seus videos são bem produzidos, recheados de informação cascudíssima e o Teddy tem um tremendo bom gosto (pros meus ouvidos, pelo menos, rs)! Você só precisa ter um pouco de familiaridade com a língua inglesa, mas a pronúncia dele flui fácil, até mesmo pros ouvidos “enferrujados” desse que vos escreve.

Resumindo, é uma fonte abundante de informação e boa música. Não foram poucas as vezes em que assisti os videos dele com um bloco de notas aberto, anotando o nome de cada disco e cada artista por ele apresentado, e indo caçar os respectivos links logo depois. No fim desse post, deixei alguns videos e os links dos canais no YT.

Keep it in the groove!






Teddy possui dois canais no utube: um é o vinyliciouness, que já não é mais atualizado tem um tempo, mas é onde estão a maioria dos videos. O outro é o eat.sleep.vinyl, onde ele posta seus videos mais recentes. 


  

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Tesouros do Bacião III

Antes de falar sobre o disco desse 3º episódio, vou confessar um pecado: eu tenho uma tremenda má vontade com a música pop dos anos 80. Vá lá, gosto de algumas coisas feitas por aquela turma do pós-punk, new wave e tals, mas o tal do synth-pop nunca me desceu (sorry, fãs do A-ha, Eurythmics e afins. Não me odeiem nem deixem de acompanhar meu humilde blog). As coisas que ouço desse período são justamente as que foram na contramão desse estilo, tal como o rock mais direto do Jam, Echo & The Bunnymen, Police, enfim, bandas que faziam um rock mais direto ao ponto e um som essencialmente “acústico”, sem descambar totalmente pros sons eletrônicos e sintetizados daquele período e que, assim, sobreviveram melhor à passagem do tempo. E, entre essas bandas, destaco os Waterboys.

Mike Scott

Liderado pelo “cantautor” e único membro constante em todas as formações da banda, Mike Scott, os Waterboys iniciaram suas atividades em 1981. Scott (nascido a 14 de dezembro de 1958), como quase todos da sua geração, começou seu envolvimento com a música durante a explosão do punk na Inglaterra, editando o fanzine Jungleland e fazendo parte de várias bandas locais. Depois de terminar a faculdade, onde estudou filosofia e Inglês, Scott se mudou para Londres com a sua então banda Another Pretty Face. Finda as atividades do Pretty Face, Scott forma a banda The Waterboys, nome esse inspirado na canção de Lou Reed “The Kids” (And I am the water boy/ The real game is not over here), junto com o multi-instrumentista Anthony Thistlethwaite e o baterista Kevin Wilkinson e lançam seu primeiro disco homônimo em 1983.

 
Para a gravação dos álbuns seguintes, A Pagan Place (1984) e This Is The Sea (1985, disco que tem o que talvez seja o maior hit da banda, “The Whole Of The Moon”), entram na formação o tecladista Karl Wallinger e o trumpetista Roddy Lorimer. E, algo que é característico do som dos Waterboys é a grandiosidade da sua música. Arranjos que beiram o épico, canções que às vezes ultrapassam a barreira dos 5 minutos, letras de alto teor poético, fazem a banda distinta de seus contemporâneos. Mas a banda passaria por mudanças e registraria o que é, pra mim, seu melhor trabalho.

The Waterboys - Fisherman's Blues (1988)

  
Após o lançamento de This Is The Sea, o tecladista Karl Wallinger deixa o grupo. Nisso, Scott e Thistlethwaite partem para a Irlanda, onde tem contato com a música folk local e recrutam os músicos irlandeses Steve Wickham (fiddle), Dave Ruffy (bateria), Guy Chambers (teclados) e Marco Weissman (baixo), resultando no som embebido em folk de Fisherman's Blues. Um disco soberbo, recheado de grandes canções e clássicos instantâneos como a faixa-título, “We Will Not Be Lovers”, “A Bang On The Ear”, uma regravação digníssima da “Sweet Thing” de Van Morrison, enfim, um dos melhores discos produzidos na década de 80 e que não envelheceu. E, como muita coisa do pop desse período, é um vinil fácil de achar, com exemplares sendo vendidos a um preço médio de R$ 20,00. Um “Tesouro” legítimo.

  




 


sábado, 10 de outubro de 2015

Tesouros do Bacião II

O tesouro da vez está longe de ser um disco subestimado – muito pelo contrário – mas é um disco cujos exemplares ainda são encontrados com facilidade, e a preços muito baixos. Mas, antes de falar do disco, vou tentar contar resumidamente um pouco da história do nosso herói de hoje.

  
Nascido em Avranches, França, a 29 de setembro de 1942, Jean-Luc Ponty é, junto de Stephane Grappelli, um dos maiores nomes do violino jazz a surgir naquele país. Músico de formação clássica, Ponty iniciou seu envolvimento com o jazz, por influência de Grappelli, ainda adolescente, curiosamente não como violinista, mas tocando clarinete e sax tenor. A adoção em definitivo do violino como seu instrumento principal se daria a partir de 1962. Após servir ao Exército Francês entre 1962 e 64, Ponty mergulhou de cabeça no jazz, liderando quartetos e trios na Europa, entre eles o Violin Summit, ao lado de Grappelli e Svend Asmussen. Em 1967, faz sua primeira viagem aos EUA, onde tem seu primeiro contato com Frank Zappa.

  The Mothers Of Invention. Ponty é primeiro à direita, em pé.

Ponty gravou com Frank Zappa e o Trio de George Duke antes de retornar à França, em 1969, e formar o seu combo de free jazz Jean-Luc Ponty Experience, que durou até 1972. Logo depois, Ponty retornou aos EUA e fez parte de uma das formações do Mothers Of Invention. Em 1974 e 1975, Ponty também fez parte da segunda formação da Mahavishnu Orchestra, ao lado de John McLaughlin. Em 1975, Ponty assina com a Atlantic Records e inicia uma série de álbuns que se tornariam clássicos absolutos do gênero jazz/ fusion.

  Jean-Luc Ponty em ação na Mahavishnu Orchestra, com John McLaughlin.

Jean-Luc Ponty é conhecido por expandir os limites e possibilidades do violino elétrico, sempre se valendo de timbres pouco usuais e uma infinidade de efeitos, como pedais de wah-wah, processadores Echoplex, distorções etc. E tudo com extremo bom gosto e técnica apuradíssima, e isso é muito evidente nesses primeiros discos dele pela Atlantic, principalmente o quarto disco dele pelo selo, que é o tesouro do bacião de hoje.

Jean-Luc Ponty – Enigmatic Ocean (1977)  


Durante esses primeiros anos dele na Atlantic, entre 1975 e 1983, Ponty seguiu fazendo um estilo de fusion bem comum ao que era feito na Mahavishnu Orchestra, porém seguindo um caminho mais melódico e lírico, mas não menos empolgante. E o Enigmatic Ocean é o disco que melhor traduz esse idioma. Aqui, Ponty é acompanhado de uma super banda, que conta com o “guitar hero” Allan Holdsworth (que já tocou em uma das muitas formações do Soft Machine e tem uma carreira solo brilhante, recomendo irem atrás), Daryl Struermer fazendo guitarra rítmica e solo, Ralphe Armstrong no baixo (que também foi seu colega na Mahavishnu), Allan Zavod nos teclados e Steve Smith na bateria e percussão. Algumas das faixas, como a suíte que dá nome ao disco, ultrapassam os 10 minutos, mas nem de longe é uma audição cansativa. Cada audição se descobre algo diferente, um timbre novo, novos detalhes, enfim, deleite puro. Arrisco dizer, sem medo de cometer injustiças, que esse é meu disco favorito do Ponty, mesmo ele tendo feito outros discaços antes e depois, como o Aurora (1975) e Imaginary Voyage (1976), todos esses também facilmente encontráveis. Portanto, fica a dica: se ver um exemplar do Enigmatic Ocean – ou qualquer outro disco do Ponty – dando sopa nos sebos da vida, não pense duas vezes. “Eargasm” garantido.